Avisos do Vesúvio

04/12/2011

 

Móbile

Moves. Move-me. Não me seguro. Espio.
Move-me, desplaça-me, desabraça-me
Onde me apoio, me perco, a solicitação
Teu viver é móvel, teu amar não óbvio
Tuas palavras, desprezo e atração
O amor não te move. Move-me. O quê?
Saber o rumo da embarcação
Mas me cativas, me hedonizas.
Escravo do instável, me apego ao não 
No desespero, imaginação.
Move-te. Tu. Perde-me. Não.
De ti me perco. De mim, me desvario.
Já não espero o concreto 
Me jogo. Esforço de redenção

 


Escrito por Frank de Oliveira às 11h53
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19/08/2011

 

Em câmera lenta

 

[Inspirado num texto do livro An equal music, de Vikram Seth]

 

 

Para ela deve ter sido bem fácil, apesar do susto. Aliás, não foi só dela o susto, foi meu também. Muito mais meu do que dela. Para mim é que foi barra.

Dizer que eu a tinha esquecido, não digo não. Não esqueci. Quase dez anos nessa vida. Beijando outras bocas e sentindo nelas o sabor do beijo dela, como dizia aquela antiga canção... Nem assim. Mais difícil esquecê-la. Mais difícil sem vê-la. Dez anos, e meu amor não recuou nem um milímetro. Pior, alimentou-se da falta, e dela sobreviveu.

Mas, como eu dizia, para ela deve ter sido fácil. Quase fácil, pensando bem. Acho que foi mais a surpresa. Ela lá no ônibus, lendo o jornal vestida com seu tailleur de executiva, os cabelos loiros presos num coque, o ônibus executivo, como ela. De repente aquele barulho lá fora, alguém gesticulando. Nem ergueu os olhos da revista, do jornal, sei lá o que era. Até que o cara do lado resolve chamar a atenção dela. Meio temeroso, como quem diz “deve ser com você, não tenho nada com isso”...

Quando levantou o olhar ela viu. Viu um homem gesticulando feito louco, no ônibus ao lado, os dois ônibus em direções diferentes, por um minuto parados, emparelhados e ao mesmo tempo desencontrados em seu destino. E esse homem que ela viu era eu.

Eu, seu grande amor do passado, a quem ela se aconchegara nas noites de frio, junto a quem gritara de prazer e chorara de tristeza.

Isso foi o que eu achei que ela veria. Ou o que eu teria visto no lugar dela. Mas o olhar dela não me disse isso. A expressão de surpresa, seguida de uma outra, de preocupação, seguida ainda por uma outra, de afetada indiferença... Era como se ela dissesse “vá embora, você não existe, não tem mais lugar em minha vida, você está perdido numa caixa de fotos antigas deixada no sótão, uma caixa que nem está mais lá, que eu não quero que esteja lá”.

Num gesto de desespero, escrevi meu telefone num papel em letras grandes e colei ao vidro, um último lance desesperado e desesperançado. Quase como se fora uma câmera lenta, ela desviou o olhar, tentando ao mesmo tempo livrar-se da situação e não chamar a atenção do resto do ônibus, das outras mulheres.

O ônibus sacolejou e eu me deixei cair na cadeira. Deixei-me cair sem me importar com os olhares de estranheza dos que me rodeavam.

Em algum lugar de mim houve um silêncio e uma morte. Mais que uma morte. Um alívio. Uma libertação.


Escrito por Frank de Oliveira às 15h19
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03/08/2011

"GOSTO DISSO!"

 

Conheci Rita antes de conhecer Rita. Me apaixonei por ela, me envolvi com ela, fiz amor com ela, tudo sem que ela soubesse. Sem que soubesse de mim, da paixão. Ela dormia juntinho de mim, ficava ao meu lado até que eu adormecesse. Eu acordava e Rita estava comigo, sem saber que estava comigo. Lembro do nosso primeiro encontro, numa noite de verão. Ela estava ali, na tela azulada. Eu a encontrei e não a deixei mais.

A primeira vez que vi André... Uma colega, Júlia, me deu. “Rita, este livro é a sua cara, olha que bárbaro.” Sempre desconfiei dessas coisas. Deixei André guardado na prateleira. Não foi assim que toquei André.

Rita se instalou na minha vida. Um dia escrevi para ela, em seu blog. Nenhuma resposta ao meu comentário. Aliás, nem o comentário foi publicado. O destino queria que ela fosse etérea, virtual, inatingível. Mas eu é que comecei a ficar doente com isso. Eu sonhava, pensava, dormia Rita, acordava Rita. Quase uma obsessão. Nem os amigos entenderam.

No quarto da minha amiga, um monte de livros. Dentro de um deles, um guardanapo, um poema escrito, uma dedicatória, sem assinatura. “Júlia, de quem é isso, que coisa é essa?, desculpa, acabei lendo.” “Aquele André”, Rita gritou lá do banheiro, “aquele do livro que eu te dei”.

Rita, guardada em mim. Os textos impressos, na mesinha de cabeceira.

voltei para conhecer André, voltei para a prateleira, ele estava lá, quietinho. Tive medo de abrir, medo do que ia acontecer. Mentira, não tive medo nenhum, abri e devorei, noite adentro, o livro. Ele não era a minha cara, como Júlia tinha dito. Ele era a cara de André. André tomou conta de mim, me fez bonita com suas palavras, me apaixonei por aquelas linhas e tive medo de conhecer o homem por trás delas. Mentira, tive vontade, muita vontade.

Júlia me falou de uma amiga. Não quis dizer o nome. Pensei comigo, vai ser bom para eu desencanar dessa mania de Rita, a garota impossível da internet.

Insisti com Júlia para que me apresentasse André. Mesmo correndo o risco de me desiludir para sempre. Ai que medo, ai que vontade.

Júlia me apresentou a amiga. Sim, era bonita. Disse que adorava ler. Disse que tinha adorado meu livro. Disse que se chamava Cássia.

André, exatamente como eu tinha pensado. Mentira, não tinha pensado nada. Mas quando ele falava, parecia que eram as palavras do livro dele. Me apaixonei por André de verdade. Em vez de dizer Rita, eu disse Cássia. Gosto disso.

De manhã, Cássia tomando banho. Um monte de livros na estante. Puxei um. Veio junto um caderno. Não acreditei. Os manuscritos de Rita. Caramba! “De onde você conhece esses textos, Cássia? Você conhece a Rita?”

“Sim, conheço. Rita de Cássia. Ao seu dispor.”

Rita. Ela. Minha paixão de verdade. Até hoje, cinco anos depois, choro quando conto essa história.

André. Ele. Meu homem de palavras e de verdade. Até hoje, cinco anos depois, choro quando conto essa história. Mentira, fico feliz e sorrio. Gosto disso.

 

 

 


Escrito por Frank de Oliveira às 12h44
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18/07/2011

Procedimento terapêutico

 

A dor visceral tem origem nos órgãos internos do corpo. Caracteriza-se por ser vaga e mal localizada. Foi só isso que Adriano ouviu, nos poucos minutos em que permaneceu na palestra. Ele de fato estava ali por uma outra dor, não aquela de que falava a palestrante. Uma dor no coração. Das que não têm solução. Não um infarto do miocárdio, outra coisa: um prejuízo de vida inteira, desarticulação da existência, falência de órgãos, ideias, sentimentos. Ao contrário daquela, sua dor tinha origem e localização bem claras. Dor de estraçalhar, dor de dividir, mágoa de traição.

Será que a doutorinha lá na frente tinha remédio para isso? Entendia mesmo o que era dor? Sabia a cor e o olor da dor?

A dele estava lá. Existia, era uma dor real, sem cura pela ciência. Sem torniquete para a sangria.

Ele sabia que podia morrer ou enlouquecer. Mas antes precisava fazer algo. E fez.

Direto. Certeiro. A mancha no avental branco veio logo. A doutorinha não gritou. Um golpe certeiro, um baque apenas, talvez nem dor.

Depois foi a vez dele: só viu o escuro súbito, não se lembrou da infância, não viu passar na mente a vida inteira, não viu nada.

Sim. Rápido. Quase indolor.


Escrito por Frank de Oliveira às 12h40
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29/04/2011

Céu de estrelas

O mundo acabou em muitos sentidos. Acabou um pouco dentro de mim. Acabou um pouco fora, nas coisas que não amo mais. Os místicos disseram que do milênio não passava. Eu passei, estou aqui, embora estejamos todos nós indo, quem sabe para um horizonte que nunca existiu. Ela me disse em meu ouvido, no meio da noite escura: estamos numa "época fim-início". Entendi, mas fiz que não, esperando que a voz dela continuasse, que colorisse a noite, espantasse o sono. Planetas lentos adentraram nesses últimos anos o início de alguns signos, ela acrescentou. E eu compreendi então, mesmo sem entender muito de tudo aquilo, por que os acontecimentos para nós de repente tinham ficado tão intensos, tão simultâneos. Pensei comigo que a solução da permanência nossa por aqui incluía ter fôlego, coragem e sabedoria. Quis falar disso a ela, mas aí o sono já a tinha levado. Então olhei por uma última vez o céu, fechei os olhos e fiquei pensando em como a vida pode ser bonita mesmo em suas versões mais delicadas.

[Com Renata da Cunha]

 


Escrito por Frank de Oliveira às 10h18
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27/04/2011

Escutei a música Yeshanti, em hebraico, sem entender nada. Fiquei imaginando o que a moça estaria dizendo. Saiu este texto.

 

Você é doce

 

Você é doce,

Como uma manhã...

Você é doce,

Como uma manhã...

 

Você me coloca em mim,

Você me traz de fora de mim,

Você me fala de mim para mim

Me faz amar os meus medos

Todos os meus medos

 

Não sei de você,

Quase nada

Só sei de você

Do que constrói em mim

 

A sua voz é como uma espada

Que me transpassa e me faz sofrer

Que me embala na noite escura

Que me domina, que vem

Que se insinua

 

A sua voz é como uma espada

A sua voz é como uma espada

A sua voz é como uma espada

A sua voz é como uma espada

 

Na minha noite, na noite no meu inverno

Está sempre você


Escrito por Frank de Oliveira às 16h56
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E eu flutuo...

 

De repente, esse espaço é outro, e eu flutuo... Sim, flutuo. Ou será o mesmo espaço, o lugar onde por tantas vezes passei em busca dela, do perfume inebriante, como se eu pudesse me alimentar apenas disso, lembranças, tão poucas e tão vivas, amante iogue vivendo da luz que ela emana.

Sou forte, sempre digo a mim mesmo. Sou forte, homem, digno e orgulhoso para não procurá-la e dizer que a amo, e para não me arrastar feito o poeta, me condenando a ser a sua sombra, contanto que ela me aceite. Sim, sou forte.

Não! Sou fraco. Sou fraco o suficiente para me perder na noite, para me perder de mim mesmo, nos lugares que sempre frequentamos, conversar com os garçons que nos conheceram, nem que seja para lembrar, com a pergunta deles, como era estar ali com ela.

Minha doença, meu vício... Não haverá nenhuma associação de bêbados anônimos ou nomeados que me faça esquecer Sofia, e nem eu quero isso, pois senão o que vai me restar? Sofia sábia, não a sabedoria dos livros, mas a sabedoria de encantar, capaz de me seduzir simplesmente ao perguntar as horas na fila do cine Astor e rápido me fazer esquecer o filme, a tarde, o café. Ou ao contrário me fazer lembrar hoje de tudo, de cada detalhe, dos infinitos a que ela podia me levar com apenas uma risada inesperada.

Sim, minha força diz não. Minha fraqueza se traveste de um aparente desinteresse, minha indolência é vencida pela falta, e as ruas dessa cidade são uma grande folha em branco, onde rabisco nos caminhos a saga da minha procura. Às vezes tenho sorte – ou seria azar – de entrar num bar e saber que ela esteve ali poucos momentos atrás. É como se eu sentisse seu perfume ainda tão sedutor para mim. Isso me deixa ao mesmo tempo triste e contente. Alimentado por uma migalha, mas sem saber se terei coragem mesmo de encontrá-la de verdade, se serei capaz de olhar nos olhos dela ou de suportar sua indiferença. O pior que pode acontecer? Ela me olhar como amigo, um amigo valioso... Deus, como vou suportar isso? Prefiro a frieza, a raiva, o desprezo.

Mas também posso sonhar. Sonhar com um dia de outono, nós dois caminhando ao longo do mar, não temos pressa em falar, a noite nos foi boa, deu a nós o melhor de nós, e desenhou poemas sem fim em nossas almas. São esses poemas que lemos agora, em nosso silêncio, no silêncio dessa caminhada sem compromisso, nesse dia igualmente descompromissado, mas com muito significado, num outono ainda nascente.

Mas este dia não é hoje, ele já se foi, está instalado num passado a que às vezes não alcanço nem em pensamento, que nem consigo reconstruir com minhas palavras. Disse alguém que a melhor representação da água é a sede. Eu tenho muita sede e por vezes não consigo imaginar a água. Às vezes tenho de materializá-la na roupa leve, no vestido de voal esvoaçante, nós dois correndo como meninos. Ou na cor da pele queimada pelo sol, o calor que ainda está nessa pele no começo da noite, me aquecendo.

Mas, volto a dizer, esses dias não são hoje. Hoje é o inverno na maior cidade da América do Sul. Hoje sou um transeunte culto, polivalente, conhecedor de falas e culturas, homem vivido e experiente, que ainda assim não consegue se comunicar com ninguém, apenas com uma lembrança.

A noite está se acabando e eu me aproximo do meu destino imponderável, um apartamento claro, de cores frias, com muito mais espaço do que jamais hei de precisar, onde eu era grande e hoje sou pequeno, depois que ela foi embora. Mas ali há uma cama, há o sono decorrente do cansaço, há o sonho decorrente do sono e de repente o momento é diverso, pois estou com ela. E então o espaço é outro, mágico, e eu flutuo...

 

Dedicado a Paulo Vanzolini,

que me ensinou o significado da palavra “ronda”


Escrito por Frank de Oliveira às 16h36
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Na manhã de hoje

 

Hoje de manhã, fui no apartamento dele. Não sei se agi certo. Mas fiz. Girei a chave, devagar. Ao abrir a porta, me senti meio intrusa. Coisas jogadas aqui e ali, uma certa bagunça. A horrível poltrona vermelha na sala, que, segundo ele me confessou um dia, tinha sido presente de uma antiga namorada. Tenho orgulho de nunca ter sentado nela, nem mesmo quando não sabia da história. Intuição feminina, claro. E também me orgulho de ter resistido à tentação de pedir a ele para jogá-la fora. Intuição feminina, também.

Na mesinha de telefone, a agenda, um pouco antiga, da era pré-celular. Folheei aos poucos, interessada e não interessada ao mesmo tempo. Muitos nomes de mulher, como não podia deixar de ser. Algumas marcas aqui e ali, reflexos talvez de noites de sábado indecisas, em que o ranking vai indo meio desesperado das melhores para as piores. Tentei me conter. Não queria pensar em ciúmes. Mas os ciúmes sempre tinham estado comigo, sempre estiveram, sempre estariam, em todos os tempos verbais. Não tenho culpa. Quem gosta tem ciúmes mesmo, sempre falei isso pra ele.

Resisti à tentação de pegar os sapatos ao lado do sofá e colocar na sapateira, não tinha direito de fazer isso, pensei. Fiquei apenas olhando a sala toda, de longe, em panorâmica.

Da sala para o quarto. A cama de casal, nosso cenário de muitas noites. Filmes de ação, eu diria. O colchão um tanto duro. Bom para a coluna, segundo ele. Um tipo de mola diferente, não lembro o nome. A cama e sua sedução. Difícil não deixar de pensar nas outras. Nas que vieram antes de mim.

No criado-mudo, o mesmo tocador de CD-rom portátil, daqueles antigos, não MP3, as caixinhas ridículas, ele tendo dinheiro para comprar um tremendo som. Sempre pensei se não tinha sido também um presente de alguém. Aliás, tudo ali poderia ser. Vontade de por tudo abaixo e comprar tudo novo para ele... como se eu tivesse grana para isso.

O guarda-roupa. A porta semiaberta, mania dele de não fechar. Os paletós, blazers, meu Deus, eu que tinha sido criada ouvindo histórias sobre fios de cabelo femininos em paletós masculinos, num tempo em que só as mulheres usavam cabelos compridos. Não resisti a ficar olhando eles, passando a mão como quem quer e não quer achar nada comprometedor.

Em cima da cama, a camisa usada. Sem pensar muito, tirei minha roupa e me vesti com ela, como fizera tantas vezes. Sentia o cheiro dele nela. O cheiro que era dele e que era meu também, como se em todo aquele tempo eu tivesse me associado a ele, como se nossos cheiros se tornassem um, como se além dos líquidos de nossos corpos nós sempre trocássemos vida e vontades e desejos e mágoas.

Mas aquela última mágoa eu não poderia trocar com ele, miscigenar, partilhar, nem que esfregasse meu corpo inteiro com a camisa, como fazia a agora, de uma maneira sôfrega, revoltada, desesperada. E eu preferia que ele estivesse agora com qualquer uma daquelas mulheres, preferia que estivesse se fartando de amor com elas, gozando todos os seus gozos.

Em vez de estar onde estava agora, num caixão que parecia menor que ele, transfigurado, talvez lembrando ainda todo o filme de sua vida, passando diante dele depois do acidente até sobrevir a escuridão. Transfigurado, deformado. Deformado e lindo e ao mesmo tempo, como se risse de mim, da minha dor e dos meus ciúmes, agora finalmente sem razão de ser.


Escrito por Frank de Oliveira às 16h33
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05/04/2011

 

 

 

Ipojuca Blues

Não é uma coisa que eu não queira. Na verdade, quero muito. Há meses sonho com isso. E estou sonhando agora neste quarto em que moro, nesta pensão simples, numa rua da Vila Ipojuca, na cidade de São Paulo. A mesma Vila Ipojuca onde eu entregava jornais quando era adolescente. A Gazeta da Lapa, Folha da Lapa, Tribuna da Zona Oeste. Ia ajudar meu pai. Lá ia ele, capricorniano, teimoso ou persistente, dependendo do dia, a capa de tecido grosso, uma correia de couro por sobre o ombro. Chato era nos dias de chuva. Os quintais molhados, o jornal sem proteção, diferente de hoje. Você jogava no quintal já sabendo que ia molhar e que ninguém ia poder ler. 

Meu pai era prensista. Tinha dois empregos. Das seis às duas. Das duas às dez. Não sei que horas almoçava. Perdeu parte de um dedo na prensa. Lembro do dia. Fiquei contrariado porque queria ir encontrar minha namorada. E aquele imprevisto. Visitá-lo no hospital. Não soube partilhar da dor dele.

Eu também sou prensista. De fábrica de plástico. Digo, também fui. Agora estou desempregado. Digo, estive desempregado por um bom período. Na verdade, fiquei sob a proteção do governo do estado de São Paulo. Ele me sustentava. Casa, comida e roupa lavada. Eu queria ir embora, ele dizia: “Fica”. Fiquei. Era um hotel muito bem localizado, na zona norte. Com porteiro inclusive. Toda a segurança possível, nesses tempos tão inseguros. Área para tomar sol. Metrô na porta. A bem dizer, não era um hotel, era um condomínio, que chegava a abrigar muito mais hóspedes do que a sua capacidade permitia. Éramos milhares. Num hotel magnífico, morando sem pagar e recebendo atenção 24 horas por dia. 

Mentira. Não era um hotel magnífico. Era um presídio. Presídio é um lugar onde as pessoas ficam presas. Como eu. Fiquei preso nesse presídio, por uns bons anos. Bem mais do que eu gostaria. Aliás, não gostaria de ter ficado nem um segundo. Mas foram muitos segundos. Assim como em poucos segundos consegui o meu passaporte para entrar lá. Segundos para pegar uma faca de cozinha e sangrar a cara de um cara que se dizia meu amigo. Segundos para me conter e não fazer o mesmo com ela, minha namorada de muitos anos e que naquele exato segundo não era mais minha namorada. Não era mais nada. Poucos segundos para entrar. Milhões de segundos até sair.

Mas um dia saí. Faz bem pouco tempo. De preso, passei a ser ex-preso. Aliás, agora sou apenas ex. Ex-preso. Ex-empregado. Ex-amante. Ex-amado. Ex-tudo.

Quando eu estava lá e pensava no dia em que ia sair, achava que a vida ia ser maravilhosa aqui fora. Que só o fato de acordar e poder caminhar pela rua ia ser o melhor de tudo. Mas quer saber? Não é. Hoje eu ando desde cedo, porque não consigo dormir. Antes mesmo que as pessoas acordem, já estou andando. Ando muito. Ainda bem que andar é gratuito. Ando para tirar de dentro de mim a prisão. Eu saí dela, mas ela não saiu de mim. Está lá dentro, impregnada.

E digo que a vida não está tão divertida assim. Sem emprego, morando nesse quarto de pensão, com um rim funcionando errado, por causa de uns “carinhos” que recebi naquele lindo hotel. Errado e ferrado. Estou bem ferrado, claro que estou. Tenho estado. Sem vontade de fazer nada. A não ser andar.

Mas hoje não. Agora é cedo, e estou acordado, como nos outros dias. Mas me sinto diferente. Gosto dessa nevoazinha. Acabo de tomar o café que eu mesmo preparei. Estou aqui, pensando. Pensando enquanto fumo este cigarro Marlboro. Pensando numa mulher.

Eu a conheci no ônibus. O que vem da praça Ramos, rumo ao terminal da Lapa. Fiquei olhando o decote dela. Eu de pé, ela sentada. Sabe, há muito tempo que não pego uma mulher. Mas não queria que minha primeira vez fora da prisão fosse com uma prostituta. Fiquei olhando o decote dela. Porém não foi por desejo, juro. Penso que foi um pouco por distração. Meu olhar pousou ali e por ali ficou. Até que ela me disse: “O que foi, nunca viu?”

Aquilo me deixou mal. As pessoas olharam. Minha primeira vontade foi desafiar todo mundo, quebrar de pau o ônibus todo. Pensei na condicional. Me segurei. Então virei para ela e resolvi encarar. “Nunca vi, mas agora estou gostando de ver.” Fiquei esperando a bofetada. Mas ela achou graça. “Saidinho você, hein?”

Agora estou aqui fumando, parado no portão da casa na rua Croata, perto da Tonelero. A cabeça se revirando em meio aos pensamentos. Quero que esse dia passe logo. Quero que chegue a hora de encontrar com ela. Lógico que quero. Ela me disse que sai às 4, é balconista numa loja em Santa Cecília. Não sei que loja.

Que chegue logo. Foi nisso que pensei quando acordei e fiz a barba com capricho. E é nisso que estou pensando. E na vontade que estou sentindo.

Tô com muita vontade. Se falar que não, estou mentindo. É nisso que eu penso agora, às 3 e meia da tarde, sentado aqui na rua das Palmeiras, perto da igreja, o sino logo vai tocar, eu sei. Tô com muita vontade de ter uma mulher nos meus braços. Ficar olhando para ela, sem roupa, quem sabe num quarto de hotel barato como alguns que tem aqui neste bairro. É nisso que penso, neste momento, aqui na padaria onde marcamos nosso encontro. Imagino ela chegando, nesta mesa, feito a mulher ali ao lado, de unhas coloridas, bebendo cerveja com aquele tipo mal-encarado, melhor nem olhar muito.

Quero uma mulher, quero essa mulher que conheci no ônibus, transar com ela, apertar os peitos dela, como não faço há muito tempo na vida. Peitos, uma coisa macia feito um pêssego, meu Deus... Quero abraçá-la com força, até que ela não possa mais fugir de mim, nem do desejo que sinto que sinto por ela. Me sentir homem de novo. E isso vai acontecer daqui a pouco. Sim, claro que vai acontecer, vamos tomar uma cerveja, alguma coisa. Mas depois, você sabe, não vai ter jeito. E eu vou dar um jeito nesse desejo.

Esse desejo, ah, esse desejo... Esse desejo de hoje, não sinto mais. Não quero saber de nada disso. A noite caiu. O trânsito aumentou. Só quero esquecer o que aconteceu e o que não aconteceu. Esquecer esse imbecil, esse idiota, esse ridículo que sou aqui na porta dessa padaria, três horas, muitos segundos, segundos demais. Esquecer essa certeza dentro de mim. Essa certeza de que ela nunca vai chegar.

 

 


Escrito por Frank de Oliveira às 13h23
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16/12/2010


[morena boa]

 

“Morena boa, que me faz penar... Bota a sandália de prata e vem pro samba, sambar”... Ele gosta de cantar isso pra mim. É o jeito dele de reconhecer que sou morena e me dizer que gosta disso. Na verdade, acho que ele enfatiza isso até demais. É como se quisesse estabelecer um contraponto – a mulher dele, branquela, loira aguada, e eu, segundo ele “cheia de vida, de entusiasmo”. “Cheia de cor”, acho que ele quer dizer.

Sabe, às vezes isso me cansa. Ele fica disfarçadamente me endeusando. Parece que está vendendo a ideia para ele mesmo... Bom, eu faço que não escuto essas comparações. Não casei com a mulher dele. Ele que casou com ela. Teve tempo para conhecer, tempo para experimentar.

De quinta, ele vem me ver. Dorme comigo. Não sei que esquema arrumou. Deveria ser melhor, não ser aquela coisa corrida, agoniada de sempre. No entanto, parece que isso não muda muito para ele. O jeito dele de me dizer boa-noite é me tirar a blusa. A forma de me perguntar se eu estou bem é me levantar a saia. Temos a noite toda, mas para ele é como se tivéssemos meia hora. Por um lado é bom, gosto de sentir o desejo dele. Por outro, me sinto um ser alienígena, sendo devorado por um canibal insensível. Às vezes até chamo ele de canibal. Meio com raiva, meio com carinho. Canibal... É um jeito que acho para lidar com isso. Aliás, haja jeito para lidar com essa história toda, com um monte de coisas, que nem dá para falar.

Ontem foi quinta. Ele veio. Bem como eu falei. Aquele cheiro de rua, de quem vem direto do trabalho. Cheiro de nervosismo e desgaste. Veio e me tomou, como sempre. Nem viu meu cabelo novo, nem minha roupa nova. Nem no sutiã novo ele prestou atenção. Ele vem me devorando, começa dizendo que sou linda, acaba dizendo que sou um tesão, que gosta de ser meu macho...

Ontem foi quinta. Mas aconteceu uma coisa estranha... Em geral, ele é muito previsível. Termina, vira para o lado, acende um cigarro. Depois, começa a falar de coisas do dia a dia, reclamações. Ele é gerente de uma transportadora. Por isso, já estou me formando em direção de caminhões e logística, com pós-graduação em administração de chatices. Vez ou outra, tento contrapor, falar do meu trabalho de advogada, não que eu faça questão, não faço mesmo, é só para contrapor um pouco. Mas ele não se interessa. Às vezes, acho que eu ter uma formação universitária o incomoda um pouco, não sei se escapo do estereótipo, nem gosto muito de pensar nisso.

Ontem foi quinta. Foi igual, mas foi diferente. Depois de se perder em mim, numa mistura de elogios e palavrões, ele de repente se calou... Ficou me olhando de um jeito estranho, como se nunca tivesse me visto, examinando cada detalhe do meu rosto... Depois começou a chorar. No início, devagar, com os olhos apenas se enchendo de lágrimas. Até que elas começaram a sair, pingando sobre meu rosto, sobre meus seios, uma espécie de chuva. Pingos de chuva, chuva de lágrimas, caindo sobre mim... Então ele aninhou a cabeça nos meus seios. Esfregando seus olhos neles, a chuva virando um rio... Então parou. Adormeceu...

Fiquei em dúvida se me mexia ou não... Permaneci ali, quieta, comigo, sentindo o peso dele sobre mim. Não queria me mexer. Não queria que aquele momento parasse de existir, não queria que acabasse. Não sei por que, acho que de repente me senti viva ali, com meu corpo sendo a terra que recebia aquelas lágrimas, como se pela primeira vez ele estivesse de fato em mim, nossas almas misturadas, a terra transformada em barro pela chuva.

Fiquei ouvindo as batidas do coração dele.

Então o celular tocou.


Escrito por Frank de Oliveira às 17h31
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16/08/2010

 

Armazenando Luísa

 

 

Na estação de metrô, espero por ela. Não é a primeira vez que alguém faz isso. Sua mãe e eu a esperamos por um bom tempo, até que resolvesse as coisas lá no céu, fizesse as malas e resolvesse encarar de novo esse planeta de feras e guerras.

Esperamos e ela veio. Chegou da viagem estelar praticamente em ótimas condições, a não ser por uma clavícula quebrada, pouco antes da aterissagem. Eu a esperei. E a espero agora.

A espera tem sentido e utilidade. Ela me dá o tempo para pensar em Luísa, em seu passado e em seu futuro. O que entendo é que ela é do mundo. Se assim não fosse, por que ia querer o tempo todo alçar suas asas de geminiana, asas grandes, maiores do que aquelas nos pés do Mercúrio que lhe afiança o signo?

Luísa é de asas e falas. Fala muito, em línguas nossas e em outras, distantes. E ela fez tudo muito rápido. Quando vi, já falava mais do que o pouco que eu falo, já estivera em mais lugares do que os poucos em que estive e, com certeza, já conhecera mais gente do que eu jamais conheci. Pra que interessa essa comparação? Para nada, ou apenas para eu me conscientizar mais dela, traçar o seu perfil nesses tempos de livros de face.

E para que traçar isso? Apenas para poder guardá-la melhor comigo, agora que ela vai embora. Sim, isso mesmo, armazenar Luísa, mantê-la um pouco ao meu lado, nesse tempo em que ela vai estar longe. Vou recolher os pedacinhos de lembranças, as palavras ditas, os sonhos muito sonhados, as frases de efeito, as fotos esquecidas no computador.

Vou fazê-lo sorrateiramente, como um Mercúrio, um Hermes, à maneira dela. De pouco em pouco, logo terei um mosaico, não aquele dos espelhinhos do Oriente, que uma vez citei, mas o mosaico de luzes, que este é o significado de seu nome. A esse mosaico, vou guardá-lo dos olhares estranhos, quero fazê-lo apenas meu, mosaico de pai que tem direito de ser egoísta, que não quer que a luz dela se desvaneça diante de olhares menos atentos, pouco compromissados...

Luísa está indo para terras distantes, mas isso é depois, daqui a alguns dias. Nesse exato momento ela está na verdade vindo. Vem no metrô para a estação onde outras vezes, nem tantas, eu a esperei. Vem em minha direção, mas não para mim. Vem, mas vai. Vai para o mundo, querendo que o mundo seja dela, sem com isso concordar em ser dele. Luísa é do mundo, mas ele não a possui.

E agora que ela vem, preparo minha captura. Começo já mentalmente a fotografá-la com meus olhos, guardar suas imagens e expressões, as roupas que estará usando, os sons que há de pronunciar. Tudo isso hei de catalogar com carinho, de forma virgianiana – também eu tenho um Mercúrio a me proteger – e colocar nos escaninhos da minha emoção – confirmações do meu amor por ela, amor que não mostro sempre, também com medo de que sua expressão em palavras possa desgastar-lhe o brilho.

Luísa está vindo, eu a armazeno. Minha mente a armazena nos escaninhos do meu coração. Organizo o espaço do meu gostar. Mas não muito. Não sou tão virginiano assim. Espero que numa noite dessas ele transborde sorrateiro, se confunda com o vento e com o mar, e vá encontrá-la em terras distantes, um sopro suave, um beijo na testa, muito de mansinho que é para ela não acordar.


Escrito por Frank de Oliveira às 14h47
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02/08/2010

 

Cara, você é muito estranho...

 

Minha amiga Pat Lau esteve em crise. Nada tão complicado, nem tão simples. Seu Outlook deixou de funcionar. Sim, o prosaico Outlook, mandador e recebedor de mensagens, resolveu não mandar, nem receber. Calou-se, fechou-se. Nem disse que ia se insurgir, pois isso seria enviar uma mensagem, e mensagens era algo que ele de fato não queria enviar.

Aconteceu no sábado à tarde, quem sabe fosse isso mesmo o que ele desejava. Desculpa de fim de semana, compreensível até. Se os paulistas vão para a praia, se os homens vazios saem à caça nos bares cheios, por que o Outlook não podia se recolher, um pouquinho que fosse, se isolar por um tempinho?

Mas Pat Lau não aceitou disso, pouco lhe importavam as razões, aliás, ela, quem sabe egoísta, nem se perguntou. Apenas lhe interessavam suas inquietudes, as mensagens que queria mandar e as que esperava receber, um inteiro mundo de ideias e sentimentos, subitamente travado pela trava do Outlook.

Ela mesma disse: “Me sinto como uma criança a quem de repente lhe tiraram o doce. Me sinto pequena, indefesa.” Não disse apenas para si mesma, mas buscou o auxílio nem sempre tão luxuoso dos amigos, para isso traindo o próprio Outlook. Aventurou-se a passar mensagens em lugares estranhos, às vezes inóspitos, como facebooks e assemelhados, expondo em arena pública o que era para ser uma conversa de três: ela, seu interlocutor e o desprezado Outlook. Pat, que eu julgava tão sensível – dizem por aí que ela é até poeta –, pouco se importou com o mensageiro mecânico. Disse apenas que ele existia para servi-la e que assim tinha de ser.

Eu, que não tinha nada a ver com o assunto, precisei ir no socorro dele, por vias adversas, a lembrar a ela sobre o outro mundo que poderia estar acontecendo ali. Como ela poderia saber dos momentos de obscuridade que ele passara na – pretensa – pane que ocorrera naquele sábado à tarde?

Quando o Outlook voltou a atuar, Pat ficou feliz, confraternizou com os amigos, mandando até mais mensagens do que seria o comum. Ficou exultante, eu diria. Mas será que, no fundo, ela pensou no bem que ele, o mensageiro de todas as horas, teria sentido, de repente liberto, ainda que por momentos, do eterno fardo de enviar e receber mensagens?

Sei que em seu egoísmo cibernético, Pat Lau não parou para pensar que aquela abstinência de palavras pudesse ser salutar, um alívio delicado para quem era sempre atravessado por elas, o tempo todo, sem trégua nem alforria.

Tudo passado, tudo resolvido, olhei nos olhos de Pat Lau e implorei a ela que não perguntasse a ele onde tinha estado nos momentos de fuga. Que ao menos respeitasse a preciosa lembrança do silêncio que ele provavelmente carregava, a sensação boa da falta das palavras, livre do conhecimento que esse não falar lhe poupara. Eu disse, ou melhor, quase gritei: “Pat, às vezes, a ausência pode ser vida!!!”

Pat Lau não se abalou. Segurou no braço, me encarou demoradamente, um olhar muito frio, e falou: “Cara, você é muito estranho. Estranho pra caramba, sabia?”

 


Escrito por Frank de Oliveira às 13h28
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30/07/2010



 

Sentimental do tempo

 

Para muitos, eu era ali um transeunte apenas, a disputar um espaço. Para esses muitos, tudo era apenas a metrópole pulsando ao cair da tarde. Para mim, era um mundo de lembranças, emoções e sentimentos. Quando parei o carro próximo à estação Marechal do metrô, tratava-se de uma providência prática. Por que insistir no trânsito até chegar ao centro da cidade, se o metrô era bem mais rápido? Mas a minha perdição foi desistir também do metrô e decidir ir a pé. Daí, o inevitável aconteceu: à minha revelia, as emoções me abraçaram, resultado das lembranças que emergiam pelas ruas por onde passava. Uma jornada psicossentimental por aquela região, mágica, que tinha em suas veias uma notável dicotomia – o chique de Higienópolis, ali tão perto, e a autenticidade dos Campos Elísios, que assumiam, impávidos, descontraídos até, a própria degradação, sem saudades do tempo em que eram o bairro mais badalado de São Paulo.

E foi por ali, no rumo das lembranças, que começou minha viagem no tempo. Ali, na rua Vitorino Carmilo, numa casa com tijolos aparentes, pertencente a uma vila inglesa, que por si já espelhava o passado. Nessa casa, trabalhei no início deste século na edição de uma enciclopédia. Paralelamente, em casa minha, lia a biografia de Tarsila do Amaral escrita por sua sobrinha Tarsilinha, um mergulho na Belle Époque brasileira, com cenas que aconteciam ali bem próximo, na rua onde Tarsila tinha morado com Anita Malfatti, na casa de Mário de Andrade ou na de Dona Yolanda Penteado... Histórias como aquela segundo a qual Mário comprava todas as flores da feira e mandava entregar na casa das meninas pintoras. Quando eu saía para o almoço, ficava imaginando que aqueles construtores de sonhos tinham andado um dia naquelas mesmas ruas, quem sabe com um poema ou um quadro a se formar na alma e na mente...

Da Vitorino para a rua Martim Francisco. Um espaço de alguns quarteirões, mas também um salto de muitos anos na minha vida. Um salto até a minha juventude em seus anos mais bonitos. Dezoito anos, a primeira namorada “firme”, Ângela... Ela morava na Martim Francisco, era nissei, de Sagitário. Quatro irmãs de personalidade fortíssima, e a mãe ainda mais. Ela me chamava de Toni (foi a única até hoje a fazê-lo). E volta e meia dizia: “Toni, eu não gosto disso!!!”. Quase um bordão. Com ela conheci muito de amor e de brigas, que aconteciam quase todos os dias e demoravam quase algumas horas...

Essa garota estudava comigo no Colégio Caetano de Campos, sim, mas o Caetano de sua versão mais bacana, ali na praça da República, com sua arquitetura antiga, ali onde conheci Jimi Hendrix, Janis Joplin, James Taylor, e onde aprendi, com o amigo Mazagão, que era possível você chorar diante da beleza, pelo excesso dela.

Em minha caminhada, antes de chegar ao colégio, havia o largo do Arouche, com seu cinema onde eu conhecia o porteiro, que me descolava ingressos gratuitos, para assistir a filmes que eu nem entendia direito. E também com seu restaurante macrobiótico Arroz de Ouro, onde eu ia com meu amigo Milton, que de tão fã dos Beatles quis também se ligar nessas modas, quando os quatro rapazes de Liverpool foram para o Oriente e voltaram de lá falando em meditação transcendental e em Ravi Shankar.

Ravi Shankar, que eu conheci ali bem perto, no Teatro Municipal. Naquele dia em que meus colegas descolados do Caetano de Campos me convenceram a cabular as duas últimas aulas, sair escondido e ir lá fazer pressão para entrar mesmo sem ter ingresso. E entramos! Difícil imaginar o efeito que causou naquele menino que eu era a magia de penetrar naquela sala já com as luzes da platéia apagada e dar de cara com toda a riqueza da música indiana, assim, sem prévio aviso.

Todas essas emoções estavam ali, guardadas. E foram despertadas de leve, por aquela caminhada entre bancários, automóveis, ruas e avenidas, como dizia a canção. Uma caminhada exterior, mas que me revelou de novo a mim mesmo, lembrança, sentimento, riso e canção, e uma imensa vontade de renascer.   

 

 

 

 


Escrito por Frank de Oliveira às 16h43
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20/07/2010

 

Como a chuva roxa que me molha até eu ficar um pinguim

 

A chuva não era roxa. Aliás, quem tinha falado esse absurdo? Só se fosse efeito da poluição ou alguma coisa do tipo. Cilene sempre tinha essas invenções. Pegava as palavras, torcia, fazia uma trouxinha, e de repente ninguém sabia mais como tudo tinha começado. Estava lá um novo significado, e André, que se dizia o senhor das palavras e das formas, logo estava aceitando o novo conceito, por vezes sem entender, como quem concorda em chupar aqueles sorvetes quadrados da Coreia. Sorvetes quadrados... Faça-me o favor!

Seja como for, Cilene falou da chuva roxa e cobrou de André uma posição. É agora ou já, ô mocinho: vai dizer que não viu a chuva aí fora caindo na sua cabeça, molhando sua boca... Cadê você, xará? Se manca. Se posiciona. Não tem mais sol não. Quer dizer, tem, mas tá lá em cima. Aqui embaixo é chuvinha e pronto. E você? Como fica nessa?

“Chuvinhenta, chuvil, pluvimedonha”... André até lembrou do poema de Drummond, no qual era Maria quem chovia. Mas, caramba, ele tinha feito tudo para se alienar, para não sentir nenhum pingo, ficar totalmente imóvel, “assim como eu fui protegido por esse escudo invisível...” Reclame de Colgate. Comercial, quero dizer. Na verdade, André não queria só se proteger da chuva. Queria ir mais longe. Proteger-se do mundo, esconder-se de si mesmo, entrar no buraco negro e não acender a luz.

Mas ela estava ali, a frase insidiosa de Cilene, o convite feito de uma forma que não deixava possibilidade nenhuma de fuga. A chuva era uma realidade. A vida dele era uma realidade, ainda que ele não concordasse com isso, não confessasse a ninguém que lá no fundo dele havia uma vontade de viver, uma vontade de retomar um poema “de verdade”. Um poema tão autêntico quanto os cafés da tarde da infância, ele no quintal e a mãe vindo chamá-lo, vem pra dentro, filho, vem tomar o café, sotaque nordestino, ternura dentro da simplicidade.

Sim, lá no fundo havia uma vontade de viver, e ela tinha nomes, registros, cheiro de brisa na praia, cheiro de acordar com a amada do lado, estender a mão sem abrir os olhos e sentir pelo contato da pele macia que ela estava ali. Mas onde tinha sido encerrada essa vontade? Vontade que tinha ainda outros exemplos, como o prazer de ficar lavando louça com a filha, falando francês e discutindo cinema, lembrando de nomes, fazendo apostas para ver quem sabia mais. Quizz da afeição, meu Deus, estava tudo ali.

Sim, estava tudo ali, ali bem longe, mas não ali agora, ao lado de André, dentro de seu peito. Na verdade, era como se ele olhasse no espelho e não se visse, um Dorian Gray sem Dorian Gray. André não queria ficar triste. André não queria ficar alegre. André não queria ficar alegre para não ter de ficar triste, para não ter de chorar. Mas às vezes ele chorava. Quero dizer, só por dentro, sem saber. Por fora, consciente, não chorava não.

A lágrima era como a chuva daquele dia. Ele não queria chorar. Nem queria ver a chuva. O pior, no entanto, é que as duas eram uma realidade. E ele fugia delas. Como naquela música Numb, do U2, ele estava daquele jeito, impermeabilizado, zumbi social, zumbi emocional. Mas lá dentro as coisas aconteciam. À revelia dele.

André ainda tentou insistir. Disse a si mesmo: a chuva não é roxa e não molha. Não, não molha. Para isso existe carro, guarda-chuva, galocha. E blusa feita em Bangladesh. E calça de flanela chique.

Difícil, né? André resolveu relaxar a guarda. O corpo não molhava, mas na alma chovia. Chovia torrentes. E não era tão ruim assim. Até chegava a ser um bálsamo naquela aridez de sentimentos, quem sabe a possibilidade de despertar do sonambulismo. O tempo estava mudando. Aos poucos ele não ficava mais mudo.

Toda aquela água se fez como um rio em sua alma. Rio lento, mas mesmo assim a se mover. Busca de socorro, amparo e mar. Ora rio lento, ora riacho cheio de vontade de se evadir montanha abaixo, a sensação de tocar lascivamente as margens.

De alguma forma ele tinha sempre caminhado. Mas às vezes não se dava conta. Às vezes se cansava daquele treinamento, feito exército, crescimento pessoal, ai que cansaço. Lê, medita, consulta, reza. Reza, medita, consulta, lê. Vontade de tomar água de coco na praia, só isso...

O dia foi passando para André e a chuva não o abandonou. Nem ele queria mais que ela se fosse. Abriu a porteira das emoções e deixou que a boiada passasse. Não podia controlar, o melhor era então observar, sentir. A alegria ia continuar guardada na geladeira, mas a tristeza podia se despedaçar, melhor mesmo que ficasse exposta, dane-se.

A montanha estava lá, não interessava mais chegar ao cume. O melhor era tomar aquela chuva ali mesmo, fossem quais fossem os seus efeitos.

A chuva choveu. As lágrimas vieram. Lágrimas de rendição. E também, por que não dizer, de redenção...

 


Escrito por Frank de Oliveira às 13h43
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13/07/2010

 

“Gritar? Que deverei gritar?”


A questão seria: como levar adiante tudo aquilo? Como me posicionar diante daquela nova onda de modificações que pareciam atingir o planeta de uma forma absolutamente inusitada, muito maior do que jamais poderíamos imaginar? Como agir, já que não sabíamos para onde tudo aquilo nos levaria, sem saber se conseguiríamos de fato resistir ao abandono, ao medo, aos ataques vindos de todos os lados – não apenas ataques físicos, como nas guerras de antigamente, mas ataques espirituais, vindos de fora e de dentro de nós, de outras dimensões, de uma terra que não poderia ser palpável.

Então me prostrei diante da rua empoeirada, os pingos de chuva começando a cair forte, o céu escurecendo, atribuindo a tudo aquilo um clima de fim de mundo, de apocalipse. Eu não poderia ficar parado ali, mas o cansaço era maior, bem mais intenso do que eu mesmo imaginara. Se havia ainda alguma coisa que pudesse me conter, essa coisa seria a lembrança dela, de Adriana, tão cheia de fúria e ao mesmo tempo tão indefesa diante daquela catástrofe que se renovava para nós a cada dia, a cada minuto.

“Gritar, que deverei gritar?”, perguntaria de novo o poeta inglês. Mas aquele não era mais um tempo para ficar falando de poesia, era um tempo, sim, de viver uma realidade agreste, dura, impregnada de medo e desolação. E eu não tinha a mínima fé de que eu pudesse escapar daquelas garras, do monstro do medo que me envolvia por inteiro, ainda que eu estivesse consciente da presença. Algo muito forte, algo de que era de fato muito difícil fugir. Coloquei a cabeça entre as pernas e me entreguei momentaneamente àquela exaustão.

 


Escrito por Frank de Oliveira às 16h46
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