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Avisos do Vesúvio
 


 

 

Longe da luz das certezas

 

 

 

Ficou então esse mal-estar. Palavras perdidas, sem confirmação. Ilusão e medo nos olhos dos que nos rodeiam. E nos nossos olhos também. Nenhum fruto. Nenhuma oferenda. Apenas a não tradução, o que não foi dito, o que não se ousa dizer. Essa é a bruma em que vivo agora. Dela me alimento. Meu não enxergar é barreira, escudo, proteção, diante da vida que não quero enfrentar. Homens acordam e dormem todos os dias. E são felizes assim. Eu me escondo, roto, nos confins da minha alma, abrigado da luz das certezas, distante das afirmações definitivas. Um mundo que se faz rico em sua incertitude. Mas que nem por isso me faz mais feliz.

 



Escrito por Frank de Oliveira às 15h45
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Fragmentos de um

discurso muito amoroso


            Assim, me permita conversar, como quem fala com as estrelas, sem certeza de resposta, deixar fluir esse rio de palavras, alguma coisa além de dois minutos.

            Modelo a imagem do meu sonho, como num mosaico de lembranças, a partir dos fragmentos de um discurso muito amoroso, pedaços de felicidade viajando pelo cosmo do meu ser, meteoritos errantes, satélite perdido, em busca da órbita da tua estrela.

            Solitário, idealizo o roteiro de um amor anunciado, misturo realidade e imaginação. Cavaleiro andante, dulcinéia maravilhosa e bela, castelos e moinhos igualmente lindos.



Escrito por Frank de Oliveira às 22h47
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Descobrimento


O índio fala.

Deus dos cabelos cor de ouro, és então o Prometido, aquele a quem por tantas luas aguardamos? Ouviste a nossa espera, cumpriste a profecia? Pesa-te a tua missão ou é encargo de amor e de entrega, que te completa o corpo e a alma? És o enviado dos deuses ou sou eu apenas um visionário? Vieste para eliminar a dor, para casar o Sol e a Lua que moram em cada um de nós? É aqui o teu reino ou escondes teu paraíso do outro lado do oceano?

 

O branco fala.

Homem da pele que o sol coloriu, a lição és tu quem me ensinas. Um dia saberei que me enganei de riqueza e, cego, errei o alvo de minha ambição. Minha sina é buscar teu ouro e te roubar a alma e esquecer tua lição de amor. Tu, filho inocente da natureza, que pisas o paraíso e não pressentes. Perdoa a meu corpo por deixar correr nele o sangue que há de te esmagar e destruir. Ser humano sou. E por humano ser desafio os deuses e suas amorosas leis.

 



Escrito por Frank de Oliveira às 22h39
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Solo de plenitude

 

A tecnologia então lhe permitiu esse paradoxo. Estar em casa e não estar ao mesmo tempo. O computador, diante do qual ela se sentava como quem se senta diante de um altar, lhe permitia comunicar-se com o mundo. Não exatamente o mundo, mas um punhado de amigos, alguns deles apenas virtuais, para quem abria o coração como quem fala a um padre ou a um psicanalista.

Assim, tudo se completava. Seu gosto taurino pelo conforto do lar, sua insistência em não sair, tudo que poderia resultar numa solidão neurótica e depressiva, agora se transformava numa alegria aparente, um tanto metálica e artificial, é verdade, mas suficiente para que pudesse continuar adiante em seus 50 anos de vida, para que pudesse tolerar o imenso desafio de ser sozinha depois de ter vivido trinta anos em comunhão com um homem – ainda que essa comunhão nunca tivesse sido carnal.

Os próprios filhos a tinham incentivado a evadir-se de casa, argumentando que um dia seriam eles a sair, para ganhar o mundo ou casar-se, e que talvez aí, premida pelas circunstâncias e pela inexorabilidade delas, ela não conseguisse lidar adequadamente com a situação.

Surpreendentemente, a mudança para o flat não fora tão ruim quanto ela imaginara. A expectativa de noites cheias de angústia e pavor, decorrentes da solidão, fora substituída por uma estranha calma, na verdade quase um ensaio de euforia. Era bom poder ver que ela era dona dos seus atos e do seu tempo. Afinal, gostava de estar em casa. E agora tinha uma casa só para ela, seu pequeno reino, no qual mandava e desmandava. No qual as coisas não saíam sozinhas do lugar. No qual, pelo menos por algum tempo, “tudo era um”, como na canção de Elis Regina. Por algum tempo, pelo menos... Mas não para sempre.

 

 



Escrito por Frank de Oliveira às 13h31
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Qual é teu nome?

 

Flash

 

– Como você chama?

– Letícia.

– Letícia? Parece nome de quem mora em castelo.

– O quê? De onde você tirou isso? Você já morou num castelo?

– Não, claro que não. Mas eu acho isso.

– Acha? Por quê?

– Você tem jeito... Sei lá... Letícia parece nome de gente nobre, rica...

– Eu não sou rica.

– Não é, mas tem sotaque.

– Sotaque?!! Você tem cada uma... Que viagem...

– Estou falando sério, pode crer. Você tem um jeito de nobreza misturada com luar.

– Ah, por favor, me deixa, tenho de chegar na escola daqui a vinte minutos. Se perco a primeira aula, tô ferrada.



Escrito por Frank de Oliveira às 15h50
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Pai quase todo mundo tem, né?

 

Luísa então descobriu que tinha pai. Descoberta surpreendente, ao que me pareceu. Quantos anos ela tinha? Acho que sete, não sei bem. Mas um dia chegou da escola, veio até mim, olhou, apalpou... Ela, que sempre fora muito distante de mim, sempre mais próxima da mãe. Ela, que por vezes chegava a me ignorar por completo, de repente descobriu que tinha pai. Parece exagero, mas foi como quando estávamos na escola e alguém nos mostrava um mata-borrão, já fora de uso mas ainda uma peça estranha por sua bizarrice. Então dizíamos: “Mas lá em casa também tem um desses”. E Luísa percebeu que tinha um desses lá em casa, um pai. Olhou, curtiu, indagou, examinou. Porém, com o passar dos dias acostumou-se à idéia, e o interesse inicial foi esmaecendo, dando lugar a uma quase indiferença, não muito diferente dos outros tempos. Mas era compreensível. Também, pai, quase todo mundo tem, né?

 



Escrito por Frank de Oliveira às 15h35
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Sonhos ao sol

 

Ando com saudades da nossa conversa sem palavras

Do jeito nosso de olhar e não dizer dizendo.

Saber que por si quase nada o coração revela...

Mas tudo ainda assim absolutamente pleno.

 

Ando com saudades da nossa conversa feita de presenças

E da ausência prenhe do que há por se afirmar.

Com as penas da dúvida faço asas de cera

E busco com elas o raro dom de voar.

 

Ando com saudade da nossa conversa desengonçada,

forjada em silêncios fáceis de se ouvir.

Poemas proféticos, cheios de vazios,

Ecos do que nem sei se quero traduzir.

 

Durmo então assim na escuridão forçada

com medo de expor sonhos ao sol da manhã,

e ver trazida à luz a verdade cifrada

de que em todo amor não há certeza vã.



Escrito por Frank de Oliveira às 09h50
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O outro fio

 

 

Então me tornei um pouco como Sherazade, dei de inventar histórias para chamar tua atenção, para conservá-la ao meu lado, histórias fascinantes o suficiente para encantar tua mente por si tão prodigiosa e veloz, e que ao mesmo tempo tivessem um gosto de realidade, o gosto da terra recém-molhada pela chuva, o sabor da pele tocada pelo sol e o mar.

Este foi então o homem que me tornei, sem saber que por trás dessa incumbência -- que eu mesmo me impusera, que não viera de ti --, na verdade buscava a mim mesmo, buscava meu segredo, sondar o mistério que eu nunca tivera a coragem nem a persistência para descobrir. E muitas vezes cada uma dessas histórias se transformava -- eu as transformava --, infinitamente, feito Penélope à espera do amado, para não deixar que outros olhos e ouvidos tomassem posse da oferta que era de mim para ti. E ao dizer que nunca estavam suficientemente belas, não deixava que existissem para os outros, os infiéis, os que nunca poderiam -- por não serem eu nem ti -- divisar o nosso horizonte particular, nosso enredo de palavras que disfarçavam sentimentos, e ao mesmo tempo nossas frases não ditas, silêncios nossos que no seu paradoxo realçavam nosso sentir. Um sentir que não confessávamos, com medo de que se esvaísse, pela certeza de que as palavras (as mesmas que tanto amávamos) não alcançariam jamais a exatidão de expressar aquilo que nem mesmo nós, com nosso coração sedento, com nossa ânsia de querer, teríamos condição de abarcar.

Então me fiz assim, como Sherazade, para que pela minha fala não morresses nunca para mim, para que tua ilusão fosse sempre uma realidade cada vez mais autêntica em minha vida, para que não se rompesse o fio de Ariadne que havia sempre de ligar meu coração ao teu. Por ironia das palavras havias de ter o nome que tens... e ser a única a compreender o labirinto dos imensos sonhos em que vivo, um mundo que construí aos pouquinhos, com uma miríade de espelhinhos do Oriente, cada um deles um reflexo do meu universo particular, meu ponto de mutação entre a realidade dos homens e a magia dos anjos.

Permite então, amiga, que a minha voz não se cale, já que o meu gesto de falar para ti é a garantia da minha sobrevivência, permite que eu me iluda ao pensar que seduzo a tua atenção, quando no íntimo o que busco é o fogo para me acalentar a alma e um vento suave que mantenha no ar a pluma  instável e ainda assim vital da minha tão doce, frágil e preciosa ilusão.



Escrito por Frank de Oliveira às 17h42
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DESAFIO DE TARQÜÍNIO

 

Para Jorge Tarqüini, mestre da arte dos teatros, que me inspirou essa aventura.

 

 

Tarqüínio – Venha, Antônio, vou levá-lo pelo subterrâneo.

 

Antônio – Subterrâneo? O subterrâneo??? Não posso, tenho medo! Por favor, não me pede isso, velho Tarqüínio, por favor.

 

Antônio sente-se um tanto atemorizado e ao mesmo tempo atraído pelo convite. O coração bate forte, o suor lhe escorre pelas têmporas.

 

T – Sim, vem, Antônio. Vem comigo. Vem para o lugar onde as palavras se debatem na garganta, onde os pensamentos anseiam por existir. Lá poderás conhecer o prazer que o teu medo não te deixa ver agora.

 

Antônio – Velho Tarqüínio, sei que tens a malícia daqueles caminhos, por isso falas dessa maneira, sem medo. Quanto a mim, o que sou se não apenas um poeta sonhador. Tu vens da terra dos gregos, lá onde qualquer menino é mestre dessas magias, por vezes funestas. (Apontando para o alto da Montanha) Foi por gente como tu, ávido pelas palavras e pelo conhecimento, que o pobre Prometeu aceitou sofrer, como sofre agora, todos os dias, seu sacrifício sem fim. 

 

T – (Observando, descontraído, o vôo da Águia) Se tens tanta pena assim dele, deverias ter caráter e honrar teu talento. Não foi ele quem te deu todas essas palavras e o dom de juntá-las? A ti, a mim e a todos os homens? Essas palavras que tu usas apenas para encantar as raparigas nos banhos. Apressa-te, Antônio, vem comigo. Deixa que te guie e te apresente aos deuses do Teatro.

 

Coro de Mulheres – Não vá, Antônio, não deixe que este velho rabugento te leve para o subterrâneo da criação. Se conseguires voltar, com certeza voltarás transformado, é certo. Não te bastamos, nós? Não te bastam todas essas musas a te inspirar as tuas canções de sedução? (Despindo-se lascivamente.) Espera, Antônio. Não vá. Escuta o chamado dos nossos corpos, alimenta com teus versos a nossa ilusão.

 

Antônio – (Dirigindo-se às mulheres) Musas amadas, meu desejo é ficar, é claro. Mas, como sabeis, nem o próprio Zeus é maior que as Destinos. E já escuto o chamado delas, na voz de Tarqüínio, esse velho que parece detestar os que se deleitam com o prazer.

 

T – Muito mais prazer terás, pobre Antônio, quando tirares o véu que te encobre, quando arrancares a mordaça de tua boca e deixares que teu pensamento voe para fora das masmorras que tu mesmo criaste para ele.

 

Antônio – Por que deveria fazê-lo, Tarqüínio? Para me tornar um homem como tu, sem dinheiro e sem fortuna, amargurado por tuas próprias reflexões e que acha gosto em se dizer um escravo da arte? Preferia ser escravo de belas mulheres, como essas que me chamam agora.

 

T – Tu falas como um blasfemo, Antônio. Para mim isto não é escravidão, mas sacerdócio. Ninguém cala minhas idéias, nem tenho de enfeitá-las como tu fazes. E se sou hoje um homem amargurado, é por ver que tantos como tu, que vieram para sacudir o universo com seus pensamentos, se escondem por trás da lira dos tolos, esvaindo seu talento em cantigas de amor e de perdição.

 

Antônio – Está bem, velho odioso. Falas assim porque sabes que um lado da minha alma no íntimo deseja ardentemente esse sacrifício. Falas dessa maneira porque, com teu dom de profeta, sabes que quando eu abrir meu coração para essa faina, não haverá mais espaço em mim para a sordidez das tavernas nem para as rimas fáceis. E tens certeza que serei definitivamente teu assecla e que só as masmorras que o teatro engendra serão minha prisão. (Resignado, segura a mão de Tarqüinio). Vamos, velho, pois sei que embora cego, tu enxergas bem mais longe do que eu.

 

 

Escrito por Frank de Oliveira às 11h12
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Sonho e sonho

 

[trecho de um conto guardado na gaveta da cômoda]

 

No sonho éramos velhos conhecidos, amigos antigos, talvez um dia tivéssemos até sido amantes. Mas ainda assim, ela não me reconhecia e, como eu disse, eu não tinha coragem de lhe dirigir a palavra. Realmente não sei por que isso acontecia, talvez no fundo eu curtisse aquela sensação, tê-la ali tão perto e ao mesmo tempo tão longe, poder acompanhá-la nas ruas do centro da cidade, como quem se esconde atrás de um disfarce. No fundo, achava fascinante segui-la por entre os executivos suados, os lépidos office-boys e os bancários marcados pelos cartões de ponto. No centro nervoso da cidade, no centro nervoso do meu coração, nosso encontro, eu como uma sombra, ela plena de luz, criando uma espécie de sutil alvoroço no meio da multidão, uma confusão especialíssima dentro da confusão maior, do tipo que só percebem os poetas e os vendedores de bilhetes.

Ela atravessava a rua diante do grande magazine, mas era como se estivesse nos jardins de um palácio, com um vestido branco semidesfocado. Eu a acompanhava sofregamente e sua imagem me dava a certeza de que todos os livros já estavam escritos e qualquer palavra seria inútil diante da leveza dos seus passos, do seu olhar, que se encontrou com o meu olhar no espelho do elevador de uma loja de departamentos. E nesse momento o verde interessado dos meus olhos contrastou com o castanho indiferente dos olhos dela (só agora me dou conta que seus olhos eram mesmo castanhos), num átimo de segundo que me marcou para sempre.

E o sonho continuou, como numa seqüência bem programada. Ela atingiu de novo a rua, e eu a seguia, sem me importar com mais nada, sem querer saber em que  dimensão eu estava. Só vi que era noite por causa dos faróis dos carros. E então sobreveio a angústia. A terrível angústia de se sentir só no meio da multidão. Um sentimento que se transformou em surpresa quando ela entrou no táxi branco, baixou o vidro e pela janela me olhou nos olhos e perguntou: "Você tem coragem de acreditar nos seus sonhos?". Pensei em responder algo, mas o táxi partiu imediatamente. E então me dei conta de que aquilo era mesmo um sonho, por mais real que parecesse. E vi que não saberia responder àquela pergunta. Uma pergunta que para mim era como o enigma da esfinge, a porta para chegar até ela, e eu não respondera nada, não ousaria jamais confessar meu próprio medo. Meu medo de me entregar às emoções, meu medo que naquele momento me condenava a não vê-la nunca mais, nem em sonho nem na realidade.

 

 



Escrito por Frank de Oliveira às 14h41
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Bailando

 

 

Baila comigo numa espiral ascendente.

 

O céu nos convidou, no paraíso a orquestra é 

 

caliente, tem salsa, mambo, dante e beatriz.

 

Por ti, por mim, rosto colado, corações

 

ardentes, vamos beber do fogo que nos queima.

 

A felicidade é mesmo uma arma quente.

 



Escrito por Frank de Oliveira às 07h40
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O jantar

 

                                                                                    Para Júlio Cortázar

 

Escrever é um pouco isso, claro. Fingir que estamos olhando para a dor só porque falamos dela, só porque a colocamos em cima da mesa, bem arrumada na travessa, todos aqueles talheres ao lado do prato, mas a certeza de que os convidados não virão, estão todos muito ocupados, longe, muito longe dali, enviando mensagens de desculpas, educadas, polidas, mas em todas elas a vontade implícita de não vir.

         Os convidados estão longe, ou fingem estar. Não querem estar perto, estão ocupados, quem sabe construindo patíbulos, procurando fios de cabelo no meio dos encanamentos, ou perdidos num congestionamento na estrada que vem do litoral. Os convidados estão longe. Não vêm a essa festa, em que sou o anfitrião. Essa é a minha festa, tive o cuidado de providenciá-la com todos os detalhes, muito me custou esse banquete, separar a essência do cardápio, vasculhar em meu coração buscando entre tantas dores aquela que tivesse uma feição melhor, que fizesse boa figura nas fotos ou que atraísse os comentários ferinos dos cronistas sociais.

Sim, eu a separei com carinho essa dor, até me fez bem escolhê-la, trazê-la à mesa. Porém, agora que sei que ela está ali exposta, que os cozinheiros se revezam em adorná-la com o mais cuidadoso capricho, que tenho certeza de sua existência, não quero encará-la. Não posso estar tão perto desse eu que ela representa e não sei até que ponto poderia lidar com isso.

Por isso, escrevo. Porque ao escrever consigo essa mágica de estar longe e perto ao mesmo tempo, de observar com alguma segurança essa dor, como quem olha algo ou alguém pelo vidro da UTI, sem saber de que lado do vidro está, mas consciente de estar preservado em relação ao outro lado. O outro lado que faz parte do mesmo ser, mas que, pelo menos, por enquanto, é impossível se admitir que faça.

Escrevendo falo dessa dor, sabendo que é minha dor, quase podendo tocá-la, mas ainda assim distante o suficiente para fugir quando a tempestade desabar, quando vierem os tornados, os terremotos, a ira dos quatro cavaleiros apocalípticos que existem dentro de mim -imóveis, silentes, apenas esperando o momento em que os autorize a cumprir sua anunciada missã. A missão de gerar a morte, para que o renascimento possa se manifestar, para que essa pálida imagem que hoje sou de mim mesmo possa dar lugar à pujança, ao fogo, à luz, à vida plena em sua imensidão.



Escrito por Frank de Oliveira às 07h28
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Nos olhos do poeta

 

Barcos.

Meu pensamento à deriva,

Paris, cidade minha.

 

A tarde vai ter todo o tempo para descer.

Nossos amores deslizam pela beira do rio.

Quero me afogar em saudade,

até que o horizonte seja apenas uma interrogação

 

Nuvens esparsas em locais isolados.

Nada existe por detrás das muralhas.

Ouço um outro rio em minhas veias.

 

Não cantarei a tristeza de um mundo caído.

Carlos poeta, como dói a tua falta

nesse árido horizonte.

 

Meu coração faz de conta.

Quando essa viagem terminar já estarei velho,

E olharei o mar,

E sentirei saudade,

E imaginarei um corpo à deriva,

Uma tarde descendo,

Um reencontro e um abraço

Que nunca houve.

 

No olhar de Carlos.

 



Escrito por Frank de Oliveira às 07h22
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Fernando exposto à visitação pública

Vejo as roupas de F, rasgadas
Pedaços delas espalhados, pisados
por incautos admiradores
ou inimigos confessos.

Fernando está exposto, ele e sua poesia.
Tão guardado estava e agora lá está
Como um faquir das palavras...
Seu sofrimento e gozo são diversão alheia

A noite o escondeu com suas sombras. Em vão.
Agora o sol alimenta os olhares à saciedade.
A turba se nutre dos versos soltos,
que antes eram alimento de traças diletas >
nas gavetas do coração do homem.

Dilacerados o homem e sua obra,
os corvos Poe-ticos das migalhas de rimas se fartam
Enquanto adeptos tentam recompor frases
Salvar textos que ninguém leu
Por egoísmo ou medo de seu criador.

Fernando está exposto, e com ele sua poesia.
Quisera não fosse eu o cronista dessa barbárie
E, pior, não fosse, secretamente,
O que com a destruição se encanta
E nela vê, quase embevecido,
o chamado dos deuses para recriar



Escrito por Frank de Oliveira às 07h18
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[atenção: o poema continua nas mensagens seguintes]

Nos solavancos da van

 

Hoje eu vim, minha gente.

Lembrando a viola do artista,

que é Paulo e leva no nome.

 

Hoje eu vim, minha gente,

mas não pensei em Paulinho,

e sim numa tarde boa,

num fim de ano qualquer,

quando vim com minha filha,

que às vezes me surpreende,

pelo que sei e não sei.

 

Luísa veio comigo,

cantando sambas a rodo,

feito uma nega da escola,

chegada a um batuque bom.



Escrito por Frank de Oliveira às 07h24
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