Avisos do Vesúvio

07/04/2010

 

 

Não nos cansamos, não é, meu amor?

 

Meu amor, há quanto tempo temos 20 anos? Há quanto tempo guardamos essa juventude, forjada nessas invenções da ciência, que se de um lado me deixam feliz pelo vigor que tenho para te amar nas noites de outono, por outro me fazem sonhar em envelhecer do jeito que faziam os antigos.

Por força desse viço artificial, perdi talvez a oportunidade de ver meus cabelos se tornarem brancos, perdi a chance de olhar o mundo com outros olhos, de diminuir meu ímpeto conforme a cobrança da idade assim determinasse. Lembro de meu pai, que tanto andou na vida, aos poucos diminuindo o ritmo, deixando-se domar pelo cansaço das fibras. E acho que não gostaria de me lembrar dele como um eterno garoto saltitante, a dirigir lepidamente um conversível vermelho. Gosto sim de me visualizá-lo com a paz que a idade lhe deu, a serenidade que o tempo, ao se sobrepor a seu orgulho viril, lhe concedeu como um presente para terminar seus dias.

Você sabe, meu amor, hoje estou com a idade com que ele faleceu, pelo menos falando na contagem dos anos, oitenta e dois para ser mais exato. No entanto, sou esse homem artificial, biônico, um fruto da tecnologia que este século 21 rapidamente construiu – e olhe que estamos apenas no meio dele ainda. Talvez para engrandecer as multinacionais dessa falsa saúde, me tornei como tantos outros um eterno jovem, um Dorian Gray pós-moderno. Quem dera ao menos no retrato eu envelhecesse.

Eu, você, todos nós, sucumbimos a esse canto de sereia da beleza e da juventude eternas. E estamos aqui agora, padronizados, assépticos, pasteurizados. A crença no domínio eterno da vida nos fez esquecer de nós mesmos, da nossa essência. Para que filosofar se a vida não nos põe medo? Sim, existem os acidentes, é claro. Possíveis. Mas também, como você sabe, minha querida, todo nosso código está muito bem guardado, e um êmulo nosso pode ser feito a qualquer hora, inclusive com todas as lembranças... Ah, as lembranças. Quem dera eu não as tivesse mais todas, quem dera ganhasse o bálsamo do esquecimento, esquecer dos momentos ruins e poder então descansar. Mas não. Não nos cansamos, não é, meu amor?

Até o nosso encontro amoroso perde um pouco o sentido, pois podemos prolongá-lo eternamente. Ah como queria sentir de novo o gosto de me perder no sono, com a cabeça nos teus seios, ser  um velho e assim ser de novo o menino que fui até que essa ciência estranha criasse esse outro mundo de perfeição e ao mesmo tempo de perdição. Ah, querida minha, não nego a beleza da tua juventude perene, mas às vezes gostaria de te ver amadurecida pelo tempo, com o encanto das várias idades.

Porém somos isso, essas réplicas de nós mesmos, um excesso de vida que parece negar a própria vida. Não terá toda essa nossa ciência o poder de nos deixar envelhecer e morrer? Às vezes, meu amor, tudo que eu queria era poder deitar e descansar. Para sempre.


Escrito por Frank de Oliveira às 16h26
[] [envie esta mensagem] []



[ página principal ] [ ver mensagens anteriores ]
 
 
 
       
   
Histórico

OUTROS SITES
    UOL - O melhor conteúdo
  BOL - E-mail grátis


VOTAÇÃO
    Dê uma nota para meu blog