Avisos do Vesúvio

15/04/2010

 

Em resposta à pergunta “Como você espreme a pasta de dentes?”

[com um agradecimento a Regina Delduque]

 

Como? Sim. Sei. Às vezes mais ordenadamente, meticulosamente, de baixo para cima, empurrando com jeito todo o conteúdo do tubo para não desperdiçar nada, algo milimétrico, ajustado e ponto. Ou seja, acho, com juízo, sem ímpeto, talvez só com decisão, premeditada e consciente. Outras vezes diferente, de qualquer jeito, com a cabeça na lua, o coração lá longe, pensando naquele amor que foi sem nunca ter sido, ou conforme dá vontade na hora, apertando no meio, com todos os dedos, sôfrego até, sem nenhum juízo, sem vontade nenhuma de ter juízo. 

Ou melhor. Ou não. Antes com juízo. Sim, outrora, como quando eu tinha medo de ser e não amava a vida, e não a vivia e a registrava apenas, em folhas de caderno amarelecidas, puídas, folhas que ninguém ia nunca ver, que alguém ia encontrar um dia, depois de minha morte, e ficar perguntando se devia porventura guardá-las ou queimá-las... Hoje, diferente. Hoje outro. Sem me preocupar se é com juízo ou sem juízo. Apenas com o objetivo maior de que a pasta saia, que seu destino se cumpra, inexorável, e que ela sirva para o que deve servir.

Porém, confesso, vez por outra, como numa recaída, ou para me ajeitar internamente, apertando o tubo de baixo para cima, mesmo com ele tampado, meramente para recompor um quadro, uma forma, que nunca mais poderão ser iguais, que não se retomam porque modificados, e pronto. Ainda assim tentando, buscando uma forma mais ordenada, um equilíbrio estético, que atenda à minha vontade de me aquietar interiormente e de olhar com olhos de esteta a forma do tubo a se recompor, a se amoldar, na tentativa de voltar a ser o que já foi um dia. Em busca assim de um equilíbrio visual, que de alguma forma favoreça o outro equilíbrio, meu equilíbrio vital.

No fim, quem olha de fora vê um tubo banal de pasta sendo espremido. Quem olha de dentro, vê recolhimento, mosaico se refazendo num encontro silente. E junto a tudo uma discreta e secreta vontade de ser feliz.


 


Escrito por Frank de Oliveira às 09h06
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