Avisos do Vesúvio

02/08/2010

 

Cara, você é muito estranho...

 

Minha amiga Pat Lau esteve em crise. Nada tão complicado, nem tão simples. Seu Outlook deixou de funcionar. Sim, o prosaico Outlook, mandador e recebedor de mensagens, resolveu não mandar, nem receber. Calou-se, fechou-se. Nem disse que ia se insurgir, pois isso seria enviar uma mensagem, e mensagens era algo que ele de fato não queria enviar.

Aconteceu no sábado à tarde, quem sabe fosse isso mesmo o que ele desejava. Desculpa de fim de semana, compreensível até. Se os paulistas vão para a praia, se os homens vazios saem à caça nos bares cheios, por que o Outlook não podia se recolher, um pouquinho que fosse, se isolar por um tempinho?

Mas Pat Lau não aceitou disso, pouco lhe importavam as razões, aliás, ela, quem sabe egoísta, nem se perguntou. Apenas lhe interessavam suas inquietudes, as mensagens que queria mandar e as que esperava receber, um inteiro mundo de ideias e sentimentos, subitamente travado pela trava do Outlook.

Ela mesma disse: “Me sinto como uma criança a quem de repente lhe tiraram o doce. Me sinto pequena, indefesa.” Não disse apenas para si mesma, mas buscou o auxílio nem sempre tão luxuoso dos amigos, para isso traindo o próprio Outlook. Aventurou-se a passar mensagens em lugares estranhos, às vezes inóspitos, como facebooks e assemelhados, expondo em arena pública o que era para ser uma conversa de três: ela, seu interlocutor e o desprezado Outlook. Pat, que eu julgava tão sensível – dizem por aí que ela é até poeta –, pouco se importou com o mensageiro mecânico. Disse apenas que ele existia para servi-la e que assim tinha de ser.

Eu, que não tinha nada a ver com o assunto, precisei ir no socorro dele, por vias adversas, a lembrar a ela sobre o outro mundo que poderia estar acontecendo ali. Como ela poderia saber dos momentos de obscuridade que ele passara na – pretensa – pane que ocorrera naquele sábado à tarde?

Quando o Outlook voltou a atuar, Pat ficou feliz, confraternizou com os amigos, mandando até mais mensagens do que seria o comum. Ficou exultante, eu diria. Mas será que, no fundo, ela pensou no bem que ele, o mensageiro de todas as horas, teria sentido, de repente liberto, ainda que por momentos, do eterno fardo de enviar e receber mensagens?

Sei que em seu egoísmo cibernético, Pat Lau não parou para pensar que aquela abstinência de palavras pudesse ser salutar, um alívio delicado para quem era sempre atravessado por elas, o tempo todo, sem trégua nem alforria.

Tudo passado, tudo resolvido, olhei nos olhos de Pat Lau e implorei a ela que não perguntasse a ele onde tinha estado nos momentos de fuga. Que ao menos respeitasse a preciosa lembrança do silêncio que ele provavelmente carregava, a sensação boa da falta das palavras, livre do conhecimento que esse não falar lhe poupara. Eu disse, ou melhor, quase gritei: “Pat, às vezes, a ausência pode ser vida!!!”

Pat Lau não se abalou. Segurou no braço, me encarou demoradamente, um olhar muito frio, e falou: “Cara, você é muito estranho. Estranho pra caramba, sabia?”

 


Escrito por Frank de Oliveira às 13h28
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